Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Botas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mário Botas. Mostrar todas as mensagens

25.11.21

Poemas para Mário Botas

Não serve para comemorar datas redondas, nem aniversários, nem coisa nenhum a não ser o criador, o poeta, o pinto. A colectânea de poemas dedicados ao artista Mário Botas, editada em Setembro pela volta d' mar e pela Biblioteca da Nazaré, transporta-nos para os diversos caminhos que a visão das obras dele nos leva. E cada um dos 43 autores (42 poetas e 1 ilustrador) oferece ao leitor as paisagens onde se pode falar dele. O livro parte de uma resposta de Mário Botas, numa entrevista ao Notícias Médicas de Abril de 1980, em que dizia que «Só podemos falar verdade quando falamos de nós mesmos...Posso falar de mim no céu de uma paisagem ou quando me sinto transportado dentro de um poema ou de uma ideia.». E a partir deste mote, os autores criaram caminhos diversos. Reúnem-se neste volume poetas já com obra de relevo na poesia portuguesa, novos, amigos do pintor, autores pouco conhecidos, mas todos com uma complementaridade de olhares sobre o que Mário Botas nos deixou: uma travessia longa, feita de nuvens que sobrevoam terrenos desconhecidos, uma aproximação ao contrário do que os mares nos dizem, um palco de cenas que tendem a ser infinitas. Este livro não deixa morrer o Mário Botas. Celebra-o fora das datas do nascimento ou da morte, dos palcos culturais, das gravatas. 


Falar dele no céu de uma paisagem - poemas para Mário Botas 
A. Dasilva O. | Amadeu Baptista | Ana Paula Inácio | António Cabrita | António de Miranda | Carlos Alberto Machado | Catarina Santiago Costa | Helena Costa Carvalho | Henrique Manuel Bento Fialho | Inês Dias | Jaime Rocha | João Alexandre Lopes | João Paulo Esteves da Silva | Jorge Velhote | Jorge Vicente | José Ricardo Nunes | Levi Condinho | Luis Manuel Gaspar | m. parissy | manuel a. domingos | Margarida Vale de Gato | Maria F. Roldão | Maria João Cantinho | Marta Chaves | Miguel Cardoso | Miguel de Carvalho | Miguel Manso | Miguel Rego | Nicolau Saião | Nuno Moura | Paulo Correia | Raquel Nobre Guerra | Ricardo Marques | Rita Taborda Duarte | Rosalina Marshall | Rui Almeida | Rui Pedro Gonçalves | Rui Tinoco | Sandra Costa | Sónia Oliveira | Teresa M. G. Jardim | Vasco Gato
capa e ilustrações de Alexandre Esgaio
edição conjunta volta d’ mar e Biblioteca da Nazaré que celebra os 10 anos da editora, Setembro 2021

20.8.13

«As Aventuras de Um Crâneo e outros textos» de Mário Botas


Volta-se sempre uma e outra vez à obra de Mário Botas. Por nos ter deixado cedo e por percebermos que dali viria muito de uma arte riquíssima.

Como uma espécie de paixão e certamente com um olhar estreito para a praia, um grupo de autores e editores reuniu em livro «alguns versos e prosas que escreveu desde 1971...até poucos dias antes da sua morte...1983». Em «Aventuras de Um Crâneo e outros textos», título de um conto de Botas, há uma sequência cronológica que nos revela poemas, fotografias, textos de catálogos e exposições, a entrevista que Rui Ferreira e Sousa fez a Mário Botas, a propósito da primeira exposição na Comissão Municipal de Turismo da Nazaré, contos, cartas e ilustrações. Muitos destes textos escritos na praia, onde nasceu e viveu, onde aprendeu a soltar - com um tio - os pincéis e as canetas tinta-da-china, onde soltava areal fora os galgos e a liberdade.
Edição simples, mas muito cuidada, organizada por Daniela Gomes, Inês Dias, Luís Manuel Gaspar e Manuel de Freitas, numa editora que tem revelado alguns dos novos (bons) poetas portugueses. Mário Botas que tanto amava a poesia, fica muitíssimo bem neste quadro.



POEMA A ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS

Das bicicletas abandonadas à beira dos caminhos
escorrem cachos de madressilvas: uma a uma
a flor perdida vai-se entregando
e colhendo
as flores já não são feitas para serem abraçadas
colhidas às ocultas
mas violentadas até se saber para que lado caem
mortas de mordeduras mórbidas e lacustres.

Uma casa um grilo…
uns dentes cerrados a dizer não e sim
alternada e silenciosamente as gaivotas
contam histórias de pasmar — as asas cortadas
e um homem passa na rua a assobiar.


Nazaré, 5 de Agosto de 1971


Aventuras de Um Crâneo e outros textos
Mário Botas
Averno, 2012

25.8.12

«Ao Mário Botas» de Augusto Oliveira Mendes

Os que apreciam o mar da Praia do Norte e olham para o Forno d'Orca como uma espécie de entrada para um mundo desconhecido, os que se perdem em observações e que criam, escrevem. No caso de Augusto Oliveira Mendes essa escrita tem uma intensidade tão forte quanto as ondas cafurnas que ele venerava. Deixou pouco escrito, a morte não lhe deu tempo. Sina dos maiores? Talvez. Os poemas sobre a praia e o Sítio e o Mário Botas são admiráveis.



No mar velhaco e atroz da Praia do Norte
a sereia chegou um dia ao areal
e dormiu -, diziam os mais velhos do Sítio

Aqui, lugar de santa e de suicídios
onde não chegam gaivotas nem sardinhas
as águas viraram-se para sapatear
toda a terra o homem


AO MÁRIO BOTAS

Inalado o cheiro das flores do campo
os gatos,
a morte moribunda, afastada
Poderias estar lá, Mário, nu, obrando
Perto um riacho ferido de espinhos, de mato
Os doces cobertos de seios e pimenta
seriam o repasto no feriado da lota
o desleixo perdido dos homens do mar

As gaivotas teriam partido rio acima
levando os pêlos quebrados da tua face



a noite embriagada
Augusto Oliveira Mendes
publicações o camelo e o cachimbo, Tramagal, 1990

30.4.12

«A Casa das Sementes» de António Osório

Alguns poetas escreveram sobre Mário Botas. Muitos lhe admiram a obra. Mas há um poeta que o pintor retractou: António Osório. O retrato acima reproduzido faz parte do livro «O Lugar do Amor» publicado em 1985 e que mais tarde seria capa de «A Casa das Sementes» publicado em 2006, Botas ilustrou ainda a capa da segunda edição de «A Raiz Afectuosa» de 1984, criou os desenhos para «O Lugar do Amor e Décima Aurora» de 2001. O poeta disse que Botas era um «ser superior». E fez melhor: Osório mergulhou no universo do pintor e dedicou-lhe um poema.


Ele próprio acabou renunciando
discretamente ao desejo
de ser cremado: os mais íntimos
lançariam do alto mar as cinzas pelo mar.
Útil seria a peixes, a recente matéria.
De frente veria a terra da Nazaré,
as mulheres crucificadas de luto,
a praia onde algas se avizinham,
incautas, de molestos anzóis.

Arqueólogo de seu rosto,
a outras dado e recolhido
como fogo de raízes. Um olhar
de âmbar (dos felinos) sobre o alvor
e a escuridão. A abundância
do grotesco, do sinistro, água
cancerosa de lodo. Denunciar,
purificando, isso dele ficou.

Infame, até para um velho, é morrer
no dia de Natal. Outro, o seu, de Setembro.
Dói o que deixou de fazer.
O revés estava no próprio sangue,
contra o qual lutou, pestiferado,
com a ajuda de um casal de galgos persas,
como ele ascéticos e frugais no medo.
E correndo demasiado rápidos.



Antologia Poética
António Osório
Quetzal, 1994