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6.10.17

O sagaz mendigo da Nazaré

É um livrinho que resume o autor, assim ele quis, como último de poesia. O autor Miguel Martins anunciou que não mais escreverá poemas e estes são os últimos escolhidos pelo próprio para resumir o que fica da obra. De entre as escassas 22 páginas, deste livro editado pela Fahrenheit 451, um dos poemas viaja até à Nazaré. Em apenas dois versos há um «sagaz mendigo». É num dos mais inquietantes poemas escritos por Miguel Martins e mais distanciados, como escreveu Manuel de Freitas. Apenas isso.


Não, não são os poemas que me interessam,
mas os poetas, os gritos noite dentro,
a casa que é alheia e se faz minha,
seja defronte ou em Paris ou mesmo
numa centúria distante e repintada.

O Alex esconjurando a impotência,
o Silva Ramos engravatando o vinho,
o Mário Alberto apostrofando as pedras
da Avenida, ou o sagaz mendigo
da Nazaré, todo onomatopeias.

Não, não há verso que luza mais afoito
do que a rosa de crepe num bordel
quando a comeste, com sal e pimenta,
e recitaste, com pompa vitoriana,
o preçário, tal fora a nossa vida.

O Caçador Esquimó
Miguel Martins
Fahrenfeit 451, 2017

10.7.13

«Hotel Praia, Quarto 508» de Manuel de Freitas

A praia deixa sempre uma espécie de saudades aos turistas, por mais ocasionais que sejam. Desde sempre, são conhecidas as tradições de famílias ribatejanas que veraneiam, ano após ano, na praia. E além de saudades de Verão, ficam também olhares peculiares, simpatias, quem sabe se rebeldias nos dias do calor e dos escaldões. Enfim, visões de uma terra que não sendo distante é desfrutada apenas no estio. 
Um desses filhos de famílias que seguiam o caminho da praia, rasgando a lezíria, Manuel de Freitas, regressou «trinta anos depois» e escreveu, a partir de um varanda do Hotel Praia. O poema está publicado no livro «Pedacinhos de Ossos», editado pela sua editora Averno, uma espécie de súmula de leituras a análises sobre livros e/ou poetas.



Hotel Praia, Quarto 508
Para a Inês 


I

São ruas que vão até ao mar, abruptamente
- ou é o mar que, desde sempre, nelas
encontrou morada? Indiferentes a esta pergunta
ociosa, as mulheres falam de casas, discutem
preços e amarguras, alugam barracas por um dia. 


E vestem-se de luto ou de cores tão improváveis
como Deus, enquanto distribuem bênçãos,
pequenos rancores, rios de ouro sobre o peito.
Será talvez um modo atávico de exorcizarem a fome
nas casas que não têm mas alugam, sentadas junto ao mar.

Não sorriem nunca, por excesso ou falta de razões.


II

Não esperava, trinta anos depois, reconhecer
a Nazaré. Igual a sim mesma, fintou o progresso
no desmando da morte e no cheiro seco
dos carapaus jacentes (só um gato preto, sem
jeito para o negócio, foi poupado ao extermínio). 

Diferente é apenas vê-la agora desta varanda,
contigo ao lado, e perceber a alegria que
irmana dos telhados e balcões, sob os farrapos
de uma língua apátrida que nem o amor
nem o mar conseguiriam devidamente pardonner

Um homem de fato completo deixou-nos ver a lua.


III

Há quem veja na sereia, que um dia se cansou,
razão suficiente para tantas mortes.
E há quem desça sem temor as escadas que vão
do Forte ao rochedo do Guilhim. Nós, menos
confiantes, olhávamos as grutas, escolhíamos pedras. 

Conchas com água dentro, recentes pedacinhos de ossos.


IV

E era como se caminhássemos sobre a lua
e o vento de Agosto nos juntasse lado
a lado, quando já não há degraus.




Pedacinhos de Ossos
Manuel de Freitas
Averno, Lisboa, Novembro 2012

23.3.13

«Forte de São Miguel» de Manuel de Freitas

Pode parecer forçado dizer que a praia ainda inspira versos, mas não é. Se tivermos em conta a antologia de poesia que acaba de ser editada pela Documenta, deparamos-nos com versos escritos na praia, uma editora da praia e um escritor da praia.
A antologia reúne o melhor da poesia editada em 2012, segundo a escolha de quatro antologiadores (também editores e escritores): Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas. No volume Resumo - a poesia em 2012, à venda na Fnac, podemos ler o poema Anywhere out of the world de Inês Dias em que a Pederneira serve de cenário, dois poemas do livro Mulher Inclinada Com Cântaro de Jaime Rocha, autor da praia, publicados pela volta d' mar, uma editora também da praia e ainda o poema Forte de São Miguel de Manuel de Freitas num exercício de memória em que coube-nos lançar / ao mar as cinzas do meu pai. Chega? para se entender que a beleza natural daquele promontório ainda inspira?


Forte de São Miguel
in memoriam A. F.

Ainda não enlouqueci e julgo-me até
capaz de reconhecer a beleza, quando a vejo.
Esta noite, por exemplo, era de prata,
sonora, o mar que se erguia na varanda do hotel.
Acordei-te; és agora a única testemunha
deste poema - e da minha vida.
Antes, logo de manhã, coube-nos lançar
ao mar as cinzas do meu pai.
Não foi fácil, tecnicamente falando.
A tampa de metal teimava em não abrir,
tivemos de recorrer a uma ponta de corrimão
das escadas velhas do Forte. E assim,
sem preparo nem rigor, há-de chegar ao oceano
o que sobrou, fisicamente, do meu pai.
Custou-me lavar as mãos, sujas
- pela última vez - da carne que me gerou.
A alma, se existe, não a sei lavar, embora
as lulas estufadas e o vinho branco
voltassem a tornar recomendável a Casa Pires.
Adeus, pai. Acho que foi mesmo
a única vez que me sujaste as mãos.

Manuel de Freitas


Resumo - a poesia em 2012
Documenta, Lisboa, 2013