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26.7.21

A Feira está de regresso

 

Já começou mais uma Feira do Livro da Biblioteca da Nazaré. Este ano - tal como em 2020 - com algumas restrições devido à pandemia. Nesta 46ª edição, a Biblioteca anuncia que «serão apenas permitidos dez visitantes em permanência no espaço da Feira, que terão que cumprir as regras de distanciamento, uso obrigatório de máscara e desinfeção das mãos durante o seu trajeto pelo espaço. As razões já identificadas também limitam o horário de abertura ao público. Assim, a Feira do Livro funcionará todos os dias das 14H às 19H e das 21H às 22H30» no Centro Cultural da Nazaré (antiga Lota). 

Na programação, teremos dia 7 de Agosto, pelas 21h, leitura dos livros «à frente do mar» e «norte, falca e légua» pelo autor nazareno m. parissy que estará disponível para conversar com leitores; e no dia 14 de Agosto, pelas 21h, estará na Feira o escritor José Luís Peixoto.

Além da programação, está disponível na Feira a nova edição do «Andarilho» o boletim cultural da Biblioteca da Nazaré, com participações de Alexandre Isaac, Hélia Correia, Jaime Rocha, João Delgado e Vasco Sousa. Também com edição gratuita online. Pode-se consultar aqui.

16.7.19

Os livros estão de volta à praia

Os livros estão de volta à praia. No próximo dia 19 de Julho, abre a 44ª edição da Feira do Livro da Biblioteca da Nazaré. Nessa noite, simultaneamente, será inaugurada a Exposição de Ilustrações sobre a vida e obra do escrito e Nobel da Literatura José Saramago. A Fundação José Saramago é entidade parceira da Biblioteca da Nazaré, nesta 44ª Feira do Livro.

Na programação até meados de Agosto, teremos, sempre às 21:30:
20 de Julho - apresentação do livro «Era uma Classe - biografia de Silvino Marques Pais da Silva» de Mário Galego, com a actuação de músicos ex-alunos do guitarrista nazareno;
24 de Julho - abordagem à obra «O Silêncio dos Livros contra o Ruído do Mundo» da responsabilidade da editora Alma Azul;
25 de Julho - apresentação do livro e leitura encenada de «O Estendal e outros Contos» de Jaime Rocha;
26 de Julho - apresentação da obra «Peregrinação Crioula» de Paulo Branco Lima;
27 de Julho - apresentação do livro «Roubar ao Mar» de Alexandre Esgaio (ilustração) e Carmen Zita Ferreira (texto);
2 de Agosto - apresentação do último livro da saga «Os aventureiros» de Isabel Ricardo Amaral; 
3 de Agosto - Senos da Fonseca abordará a temática da pesca do bacalhau com a obra «Os Últimos Terranovas Portugueses»;
9 de Agosto - apresentação do livro «Saudade» de António Catarino.

44ª Feira do Livro da Biblioteca da Nazaré
Centro Cultural da Nazaré
19 Jul - 11 Ago 2019

4.6.19

Os poetas foram molhar os pés ao mar da Praia

É uma imagem para a história das artes literárias na Nazaré. Nas celebrações dos 80 anos da Biblioteca da Nazaré, a colectividade realizou o primeiro Nazaré.Poesia.Abril. Um encontro de poetas que durou dois dias: 31 de Maio e 1 de Junho, com sessões na Biblioteca da Nazaré, no Café Jazz (antigo Tabares), na Taberna do T' Izelino e no Quintal do Zé Paiva.
Nesta imagem, tirada no Quintal do Zé Paiva e divulgada por Pedro Teixeira Neves no Facebook, estão os autores Jaime Rocha, Marta Chaves, Pedro Teixeira Neves, Henrique Manuel Bento Fialho, Vasco Gato e Catarina Neves de Almeida. Do cartaz inicial, falta na fotografia o poeta Miguel de Carvalho e o autor m. parissy ausente por motivos profissionais.
Consta que as leituras em público correram muito bem e que, no fim daqueles dois dias de poesia, qual ritual dos velhos pescadores e de outros adoradores que sinalizam o respeito, juntos foram dizer Boa Noite ao mar.

11.4.19

Nazaré.Poesia.Abril - Encontros 2019

E no fim-de-semana da Páscoa, os poetas voltam à praia. Na programação dos 80 anos da Biblioteca da Nazaré, arrancam anualmente (assim se espera) os encontros «Nazaré.Poesia.Abril».
Três dos poetas haviam sido  «Poeta do Mês» na BN: Miguel de Carvalho em Janeiro; Pedro Teixeira Neves em Fevereiro; Henrique Manuel Bento Fialho em Março.
Ao longo do ano haverá outras novidades para celebrar os 80 anos da Biblioteca da Nazaré.

27.12.18

Vozes da praia nas Caldas da Rainha

fotografia de Natacha Narciso / Gazeta das Caldas
Ao longo do ano 2018, o autor e blogger Henrique Manuel Bento Fialho levou ao Teatro da Rainha, nas Caldas da Rainha, dezenas de poetas, editores, leitores,...Uma terça-feira por mês, a plateia encheu-se para ouvir dizer e contar, numa ideia que o Henrique deu o nome de Diga 33. Numa dessas terças, a de 16 de Outubro, ouviram-se dois autores nascido no mesmo lugar, com trajectórias que coincidem, apesar das diferentes obras e idades: Jaime Rocha e m. parissy. Como escreveu o Região de Rio Maior, «ouviram-se histórias com a vila piscatória em pano de fundo. Falou-se também da Tetralogia da Assombração do Jaime Rocha e o m. parissy não revelou a origens do seu nome, mas falou da editora volta d’mar.» A Gazeta das Caldas também deu conta da sessão.

17.6.16

O mar como assombro

Jaime Rocha
(foto de Nuno Ferreira Santos)
«Escola de Náufragos» o mais recente livro de Jaime Rocha mereceu um interessantíssimo artigo de Hugo Pinto dos Santos, no jornal Público. Pegando no mar como assombro, percorrem-se os 30 anos que separam «Tonho e as Almas» deste «Escola de Náufragos», passando pelos poemas de «Mulher Inclinada Com Cântaro».
Diz-se, neste artigo que A Nazaré constitui um local emblemático do percurso de escrita de Jaime Rocha, em títulos tão distintos como Mulher Inclinada com Cântaro (Volta d’Mar, 2012), mas também numa novela publicada há mais de trinta anos, Tonho e as Almas (Relógio D’Água, 1984). “Estes trinta anos de pausa [entre Tonho e as Almas e Escola de Náufragos] permitiram-me distanciar totalmente, friamente. Tirar as emoções em relação à minha infância, para poder libertar-me disso tudo, porque acho que não é bom para a literatura.” E Jaime Rocha volta a traçar os limites e as confluências dos géneros: “As emoções, para mim, são boas para o teatro; não as quero pôr na poesia, nem na prosa. Deixo as emoções para as personagens do teatro.” Quando compara a novela de 2016 com a que publicou na década de 80, afirma: “Este distanciamento permitiu-me ser muito frio para com esta criança, mesmo sabendo que ele vai caminhar por um terreno instável e pantanoso, que eu próprio, enquanto criança, vivi e que é a rua, o mar, a areia, as ondas, o perigo. O medo. Das almas do outro mundo, da morte. Os pescadores têm uma relação muito próxima com os seus mortos. Os seus mortos são amigos, porque morreram a lutar pela sobrevivência dos vivos. E isso permite uma relação de diálogo com os mortos.


25.5.16

«Escola de Náufragos» de Jaime Rocha

A praia teve sempre náufragos e uma escola de gente que aprendeu a dor da morte, do desaparecimento, gente que está impregnada de sofrimento. Essa dependência do mar tem vindo a ser escrita por alguns autores que se acercaram do paredão e o olharam. A «Escola de Náufragos» é o novo livro de Jaime Rocha. Não sei ainda se de prosa, se de poesia com um dramatismo que se poderia levar à cena. Este livro, tal como em «Tonho e as almas», vai a Raúl Brandão buscar o assombro. Enquanto estou nas primeiras páginas, leio nos jornais: o i diz que Jaime Rocha voltou à infância e que «...“Escola de Náufragos” puxa as suas redes a partir da memória, arranca vivências impressivas de um país que é o retrato de uma das mais veementes noções que temos de Portugal, aquele da austera e firme têmpera que de diferentes modos foi glosada pelos grandes cronistas portugueses», no notícias do bloqueio Fernando Paulouro chama-lhe magnífico, o Diário de Notícias considera que este livro tem uma «narrativa arrepiante». Para que seja o próprio autor a dizer a que regressa, escutamo-lo numa entrevista na Antena1. E aqui podem ler-se as primeiras páginas.


Lá ao fundo, para onde desce a vila, há um grande mar e é sobre ele que cai uma chuva intensa que depois atinge os telhados e transforma as ruas em pequenos riachos. A água vai subindo pelas encostas que protegem a arquitectura dessa vila e desaparece para norte. É do mar que vêm os gritos que caem em cima da criança como uma pedra, como se uma ave belicosa viesse poisar‑lhe nas costas e debicasse as bolas de trapo e papel que o tio lhe havia feito para servirem de brinquedo.
Inicia‑se aqui uma nova vertigem de luto, com as mulheres num choro violento e os homens a fumarem pelos cantos, um cheiro intenso a velas e a borras de café e um grande lençol que estendem em cima de uma cama como se tudo aquilo não fosse apenas um ritual, mas de novo a maldição a entrar naquela família, uma coisa gravada pelo tempo no promontório que tomba sobre o mar.
Nesta casa só se fala de morte, diz o pescador velho, 
e mesmo aquele que anda ali pelo chão aos trambolhões agarrado aos trapos tem os dias contados, vai deixar de ser criança cedo.
Há qualquer coisa de incerto no olhar da criança, uma ausência de claridade como se um besouro voasse à sua volta e lhe turvasse a vista. Está vestido com uma roupa de xadrez, cheia de remendos, e
o seu corpo pequeno, enroscado devido ao frio, exala um cheiro a podre, como se tivesse um rato morto dentro do bolso.

Escola de Náufragos
Jaime Rocha
Relógio D'Água, 2016

24.10.15

«Tonho e as almas» de Jaime Rocha


«Tonho é o último dos náufragos de uma geração de pescadores» diz-se no cólofon em jeito de súmula. Pescadores, hoje, já muito poucos o podem dizer que o são. Este, Tonho de seu nome, carrega uma heróica demanda à procura de encontrar um paixão. Daquelas que perfura o promontório e encontra mesmo o dragão que há-de estar ainda escondido na pedra. Vive de rugidos e fantasmas, de alucinações e tragédias. Encontra as almas do outro mundo. Trata-se do primeiro romance de Jaime Rocha, autor nascido nestas areias onde se encontram bartidores, bicheiros, candís, enxamas, panais, recoveiras, varolas ou xalavares. Noventa e uma páginas de alucinações de Tonho. O livro tem no fim um glossário que ajuda a compreender o chamado nazaréu, língua dos pescadores da Nazaré. É um daqueles livros para levar no foquim, onde quer que se esteja, frente ao mar.


Tonho e as almas
Jaime Rocha
Relógio d'Água, Setembro 1984

12.5.13

«A Minha Primeira História de Portugal» de Inês Dias

Não tendo escritos sobre a praia, tem a praia lá dentro. Na edição de Resumo a poesia em 2011, há um poema em que Inês Dias lembra D. Miguel «com quem / me cruzei na Nazaré, quando fugia / de um milagre que não conseguia ver, / todo o mar do império cavado à minha frente...» e há outros: um poema de Jaime Rocha, outro de Miguel Martins. Ambos foram publicados na revista que celebrou os 20 anos da non nova sed nove, editora da praia.


Dizem que a vida me foi dada à borla.
Só eu sei quanto isso me custa.

Dizem que não penso nos outros.
Deus sabe o tempo que gasto a pensar nisso.

Dizem que tenho um ego agigantado.
É a única coisa que tenho.

Dizem que vou acabar sozinho.
Têm razão.


Miguel Martins




A Minha Primeira História de Portugal
Para o meu pai,
que me ofereceu há muitos anos este título



Sabes bem que sempre preferi os sonhadores
e os derrotados, tal como nunca deixei de
escolher as canções mais tristes.
Saltava as páginas em que se tomavam
castelos e cobiçavam praças estranhas
para me poder sentar esquecida
à volta de uma fogueira,
vendo um irmão ser traído
um exército desejar a morte
por uma visão. Do pinhal de Leiria
ficou-me apenas o sobressalto
do vento perdido entre as árvores,
o aroma ainda distante da canela
que, anos mais tarde, sentiria
noutro poeta. E tanto ouro do Brasil
assombrou-me as noites com pesadelos
de mármore e talha que nem a nossa armada
de papel conseguia vencer.

Hoje em dia, Sebastião é o vagabundo
mais fiel do meu jardim. Todas as tardes
adormece sobre a relva, numa real
indiferença aos pássaros que o saúdam
ou à beleza das romãzeiras que insistem em ungi-lo
de flores à falta de nevoeiro.
Gosto de reis assim, cujo túmulo
possa procurar em todas as capelas
de uma catedral estrangeira, acendendo
vela por vela até o encontrar para ti;
e sobretudo de D. Miguel com quem
me cruzei na Nazaré, quando fugia
de um milagre que não conseguia ver,
todo o mar do império cavado à minha frente.
Os meus passos não se marcaram
na rocha, nem a figura do rei-arcanjo
recuperou esses contornos apagados à força
na pedra do forte. Mas fizemos um pacto –

doravante o olhar de um sustém
o outro sobre a terra. É só essa
a nossa história.

Inês Dias



Resumo - a poesia em 2011
Documenta, Lisboa, 2012





23.3.13

«Forte de São Miguel» de Manuel de Freitas

Pode parecer forçado dizer que a praia ainda inspira versos, mas não é. Se tivermos em conta a antologia de poesia que acaba de ser editada pela Documenta, deparamos-nos com versos escritos na praia, uma editora da praia e um escritor da praia.
A antologia reúne o melhor da poesia editada em 2012, segundo a escolha de quatro antologiadores (também editores e escritores): Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas. No volume Resumo - a poesia em 2012, à venda na Fnac, podemos ler o poema Anywhere out of the world de Inês Dias em que a Pederneira serve de cenário, dois poemas do livro Mulher Inclinada Com Cântaro de Jaime Rocha, autor da praia, publicados pela volta d' mar, uma editora também da praia e ainda o poema Forte de São Miguel de Manuel de Freitas num exercício de memória em que coube-nos lançar / ao mar as cinzas do meu pai. Chega? para se entender que a beleza natural daquele promontório ainda inspira?


Forte de São Miguel
in memoriam A. F.

Ainda não enlouqueci e julgo-me até
capaz de reconhecer a beleza, quando a vejo.
Esta noite, por exemplo, era de prata,
sonora, o mar que se erguia na varanda do hotel.
Acordei-te; és agora a única testemunha
deste poema - e da minha vida.
Antes, logo de manhã, coube-nos lançar
ao mar as cinzas do meu pai.
Não foi fácil, tecnicamente falando.
A tampa de metal teimava em não abrir,
tivemos de recorrer a uma ponta de corrimão
das escadas velhas do Forte. E assim,
sem preparo nem rigor, há-de chegar ao oceano
o que sobrou, fisicamente, do meu pai.
Custou-me lavar as mãos, sujas
- pela última vez - da carne que me gerou.
A alma, se existe, não a sei lavar, embora
as lulas estufadas e o vinho branco
voltassem a tornar recomendável a Casa Pires.
Adeus, pai. Acho que foi mesmo
a única vez que me sujaste as mãos.

Manuel de Freitas


Resumo - a poesia em 2012
Documenta, Lisboa, 2013

17.2.13

«Mulher Inclinada Com Cântaro» de Jaime Rocha

Jaime Rocha lê poemas na Biblioteca da Nazaré, 2 de Fevereiro de 2013
Acaba de ser editado o novo livro de poemas de Jaime Rocha. Trata-se de um livro pequeno - 18 poemas - mas com uma intensidade que faz percorrer o areal e as ruas apertadas da praia, leva-nos atrás da mulher de um "ritual entre o seu corpo / e o barro_______________", põe-nos a observar a mulher que "despeja as tripas de peixe / no mar e é assaltada pelas gaivotas." O autor nasceu na praia e nunca tinha escrito assim sobre ela, em poesia. São conhecidos, o romance «Tonho e as Almas» sobre o «último dos náufragos de uma geração de pescadores» ou  as cenas do entrudo na praia num texto que abre o volume «Ensaiar» de fotografias de Valter Vinagre. «Mulher Inclinada Com Cântaro» é uma edição volta d' mar, numa tiragem de 150 exemplares e com fotografia de capa de Sylviane Lehuby.



9.

Antes de abandonarem a praia, o cão
e a mulher aproximam-se da água
e urinam os dois para que a espuma
leve para longe a sua marca ao encontro
de um corpo. Porque ambos sabem que
um náufrago vive no coração do mar
à espera que as correntes e as rochas
o devolvam à terra_______________

Quando ela volta à fonte com o cântaro
vazio, espreita para o interior do barro
como se lá dentro pudesse estar uma
parte que fosse desse corpo que amou.

A torneira não para, enquanto o sol
do final da tarde vai transformando
devagar as cores dos seus cabelos.



10.

Não há cigarras nas árvores. Os besouros
fugiram. Apenas os grilos vêm beber aos
degraus das casas. O cão rodopia sobre
si mesmo encantado com a luz, mas a
mulher vive indiferente a tudo isso____


Se houvesse aqui monumentos antigos
junto ao mar , ruínas, arcos, cemitérios,
mas não, não existe nada,

diz a mulher. 

É o seu corpo agora que se enrola no
vento à procura de um espaço pequeno
onde possa esconder os objectos e rezar.



Mulher Inclinada Com Cântaro
Jaime Rocha
volta d' mar, nazaré, novembro 2012


4.8.12

«Joaquim e Judite» de Inês Dias

Dispersos pelas revistas e fanzines também se encontam olhares sobre a praia. No recente número da revista criatura, surgem três poemas com alusões directas. Dois poemas de Inês Dias e outro de Jaime Rocha. No primeiro caso trata-se claramente de uma autora que conhece e visita regularmente a praia, no segundo, é um poema que foi publicado originalmente na revista non nova sed nove, em abril de 2011 e que celebra os vinte anos daquela editora.



JOAQUIM E JUDITE
Para o Manuel,
na Nazaré

Fizera toda a viagem com ele ao colo.

Queria despedir-se junto ao mar,
mas as partidas são tão imperfeitas
demasiado enferrujada para abrir 
se o coração é uma caixa de cinzas
ao vento. Mesmo agora, depois de lavada
a última partícula que se lhe colara
à pele, sabia que o amor passara a ter
o peso exacto das ondas e, por isso,
nunca mais deixaria de o ouvir.

E ria, apontando-nos mais um turista
à procura das marcas do milagre
na pedra. Como se não fosse milagre
suficiente cada volta do mar: sermos
ainda reconhecidos, sete passos
dentro da noite, quando andamos
pelo mundo a povoá-lo de fantasmas.


A MINHA PRIMEIRA HISTÓRIA DE PORTUGAL
Para o meu pai,
que me ofereceu há muitos anos este título


Sabes bem que sempre preferi os sonhadores
e os derrotados, tal como nunca deixei de
escolher as canções mais tristes.
Saltava as páginas em que se tomavam
castelos e cobiçavam praças estranhas
para me poder sentar esquecida
à volta de uma fogueira,
vendo um irmão ser traído,
um exército desejar a morte
por uma visão. Do pinhal de Leiria
ficou-me apenas o sobressalto
do vento perdido entre as árvores,
o aroma ainda distante da canela
que, anos mais tarde, sentiria
noutro poeta. E tanto ouro do Brasil
assombrou-me as noites com pesadelos
de mármore e talha que nem a nossa armada
de papel conseguia vencer.

Hoje em dia, Sebastião é o vagabundo
mais fiel do meu jardim. Todas as tardes
adormece sobre a relva, numa real
indiferença aos pássaros que o saúdam
ou à beleza das romãzeiras que insistem em ungi-lo
de flores à falta de nevoeiro.
Gosto de reis assim, cujo túmulo
possa procurar em todas as capelas
de uma catedral estrangeira, acendendo
vela por vela até o encontrar para ti;
e sobretudo de D. Miguel com quem
me cruzei na Nazaré, quando fugia
de um milagre que não conseguia ver,
todo o mar do império cavado à minha frente.
Os meus passos não se marcaram
na rocha, nem a figura do rei-arcanjo
recuperou esses contornos apagados à força
na pedra do forte. Mas fizemos um pacto -

doravante o olhar de um sustém
o outro sobre a terra. É só essa
a nossa história.

Inês Dias


 
POEMA

Ao fundo, as nuvens chocam com as
casas. Os pássaros gritam e há homens
que se atiram das varandas como se
fossem vasos empurrados pelo vento.
Os carros esmagam os bichos que correm
pelo alcatrão. É quase Primavera, o frio
anuncia uma culpa antiga, a solidão
dos guerreiros. E há um outro homem
que diz: gosto das árvores, do seu tronco
e das raízes que rasgam as calçadas. Esse
homem decidira viver porque pertencia
à humidade das paredes, aos telhados de
barro, às bétulas. Era dali que lhe vinha
a força dos braços, a claridade que se lhe
prendera à pele. Era esta a sua confissão.
Mas, após ter dito aquelas palavras lançou-se
para o espaço, seguindo a trajectória da chuva.


No aniversário dos 20 anos da editora
non nova sed nove - Nazaré, Abril 2011


Jaime Rocha


revista criatura
nº 6, Novembro de 2011
Direcção: Ana M. P. Antunes, David Teles Pereira e Diogo Vaz Pinto