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2.9.19

O juiz e escritor da praia

O escritor Álvaro Laborinho Lúcio voltou à Nazaré nas páginas do Diário de Notícias. Entrevista ao antigo juiz e ministro, a propósito do novo livro «O Beco da Liberdade». Trata-se do terceiro romance escrito por este nazareno que mantém a memória viva dos tempos de escola e de teatro na Nazaré. Na entrevista, recorda a ida para a escola dos «pés descalços» em vez dos «pés calçados», as amizades que ainda mantém, o mundo da pesca do lado do pai e o teatro.

Estamos a falar de meados da década de 50 do século passado e a Nazaré vivia muitas dificuldades económicas. Havia uma distinção muito cerrada entre o pé calçado e o pé descalço - basta dizer que a escola terminava na quarta classe. Eu próprio tive de sair de lá para continuar a estudar. Quando chegou a altura de ir para a escola, muitos dos meus amigos acabaram por convergir para a escola da Dona Virgília: não se pode dizer que esta fosse a escola dos pés calçados e a outra a dos pés descalços, mas o que acabou por acontecer foi que a maioria dos pés calçados acabou por ir para a escola da Dona Virgínia. Lá em casa colocou-se essa questão e foi o meu pai quem decidiu...

Diário de Notícias - edição online
entrevista de Paula Freitas Ferreira
2 Setembro 2019

12.4.17

Os pés-descalços e os pés-calçados

Vale mais tarde que nunca, diz o ditado. E ter nascido escritor aos 72 anos, não é tarde. É no tempo que é ou que tem de ser. Álvaro Laborinho Lúcio, nazareno, ex-ministro, ex-presidente da Assembleia Municipal da Nazaré, ex outras coisas de estado e de responsabilidade públicas, escreveu já dois livros (um deles com a Nazaré como pano de fundo). E o Jornal de Letras acaba de publicar uma Autobiografia. É de ler!

Na primeira vez que nasci havia guerra. Na minha terra, Nazaré, havia fome. As pessoas dividiam-se em pés-descalços e pés-calçados. Os miúdos descalços vestiam camisola de escocês esfiapado e andavam nus da cintura para baixo. Eu usava calções. Quando chegou o tempo de aprender a ler, a escrever e a contar, o meu pai mandou-me para a Escola dos Pescadores e eu fiquei colega dos pés-descalços. Aí, ao princípio, nascia todos os dias um bom bocado. Acho que foi nessa altura que nasceu por dentro a parte mais funda de mim. Nasceu e ficou lá.

Álvaro Laborinho Lúcio
Entre as linhas
JL-Jornal de Letras, nº 1214, 12 abril 2017