2.9.19

O juiz e escritor da praia

O escritor Álvaro Laborinho Lúcio voltou à Nazaré nas páginas do Diário de Notícias. Entrevista ao antigo juiz e ministro a propósito do novo livro «O Beco da Liberdade». Trata-se do terceiro romance escritor por este nazareno que mantém a memória viva dos tempos de escola e de teatro na Nazaré. Na entrevista, recorda a ida para a escola dos «pés descalços» em vez dos «pés calçados», as amizades que ainda mantém, o mundo da pesca do lado do pai e o teatro.

Estamos a falar de meados da década de 50 do século passado e a Nazaré vivia muitas dificuldades económicas. Havia uma distinção muito cerrada entre o pé calçado e o pé descalço - basta dizer que a escola terminava na quarta classe. Eu próprio tive de sair de lá para continuar a estudar. Quando chegou a altura de ir para a escola, muitos dos meus amigos acabaram por convergir para a escola da Dona Virgília: não se pode dizer que esta fosse a escola dos pés calçados e a outra a dos pés descalços, mas o que acabou por acontecer foi que a maioria dos pés calçados acabou por ir para a escola da Dona Virgínia. Lá em casa colocou-se essa questão e foi o meu pai quem decidiu...

Diário de Notícias - edição online
entrevista de Paula Freitas Ferreira
2 Setembro 2019

16.7.19

Os livros estão de volta à praia

Os livros estão de volta à praia. No próximo dia 19 de Julho, abre a 44ª edição da Feira do Livro da Biblioteca da Nazaré. Nessa noite, simultaneamente, será inaugurada a Exposição de Ilustrações sobre a vida e obra do escrito e Nobel da Literatura José Saramago. A Fundação José Saramago é entidade parceira da Biblioteca da Nazaré, nesta 44ª Feira do Livro.

Na programação até meados de Agosto, teremos, sempre às 21:30:
20 de Julho - apresentação do livro «Era uma Classe - biografia de Silvino Marques Pais da Silva» de Mário Galego, com a actuação de músicos ex-alunos do guitarrista nazareno;
24 de Julho - abordagem à obra «O Silêncio dos Livros contra o Ruído do Mundo» da responsabilidade da editora Alma Azul;
25 de Julho - apresentação do livro e leitura encenada de «O Estendal e outros Contos» de Jaime Rocha;
26 de Julho - apresentação da obra «Peregrinação Crioula» de Paulo Branco Lima;
27 de Julho - apresentação do livro «Roubar ao Mar» de Alexandre Esgaio (ilustração) e Carmen Zita Ferreira (texto);
2 de Agosto - apresentação do último livro da saga «Os aventureiros» de Isabel Ricardo Amaral; 
3 de Agosto - Senos da Fonseca abordará a temática da pesca do bacalhau com a obra «Os Últimos Terranovas Portugueses»;
9 de Agosto - apresentação do livro «Saudade» de António Catarino.

44ª Feira do Livro da Biblioteca da Nazaré
Centro Cultural da Nazaré
19 Jul - 11 Ago 2019

4.6.19

Os poetas foram molhar os pés ao mar da Praia

É uma imagem para a história das artes literárias na Nazaré. Nas celebrações dos 80 anos da Biblioteca da Nazaré, a colectividade realizou o primeiro Nazaré.Poesia.Abril. Um encontro de poetas que durou dois dias: 31 de Maio e 1 de Junho, com sessões na Biblioteca da Nazaré, no Café Jazz (antigo Tabares), na Taberna do T' Izelino e no Quintal do Zé Paiva.
Nesta imagem, tirada no Quintal do Zé Paiva e divulgada por Pedro Teixeira Neves no Facebook, estão os autores Jaime Rocha, Marta Chaves, Pedro Teixeira Neves, Henrique Manuel Bento Fialho, Vasco Gato e Catarina Neves de Almeida. Do cartaz inicial, falta na fotografia o poeta Miguel de Carvalho e o autor m. parissy ausente por motivos profissionais.
Consta que as leituras em público correram muito bem e que, no fim daqueles dois dias de poesia, qual ritual dos velhos pescadores e de outros adoradores que sinalizam o respeito, juntos foram dizer Boa Noite ao mar.

11.4.19

Nazaré.Poesia.Abril - Encontros 2019

E no fim-de-semana da Páscoa, os poetas voltam à praia. Na programação dos 80 anos da Biblioteca da Nazaré, arrancam anualmente (assim se espera) os encontros «Nazaré.Poesia.Abril».
Três dos poetas haviam sido  «Poeta do Mês» na BN: Miguel de Carvalho em Janeiro; Pedro Teixeira Neves em Fevereiro; Henrique Manuel Bento Fialho em Março.
Ao longo do ano haverá outras novidades para celebrar os 80 anos da Biblioteca da Nazaré.

19.2.19

Nos 80 anos da Biblioteca da Nazaré

A Biblioteca da Nazaré (BN) comemora este ano 80 anos. Foi no dia 2 de Abril de 1939 que o escritor Branquinho da Fonseca e o Dr. José Maria Carvalho Júnior (que desempenharia durante mais de 20 anos o cargo de Director da Biblioteca) fundaram a BN para «promoção por todos os meios ao seu alcance, da cultura e do gosto pela leitura».
Nas comemorações ao longo deste ano destacam-se os Encontros Nazaré.Poesia.Abril. Começaram em Janeiro, com o poeta, livreiro e editor Miguel de Carvalho, seguirá em Fevereiro com o poeta Pedro Teixeira Neves.
Sessões na sede da BN, entre livro e leituras, perguntas e conversas entre leitores e autor. Encontro «Poeta do mês» repetirá em Março e, até ao final do ano. Para Abril, prepara-se um longo programa literário.

18.1.19

Um cronista com a praia em fundo

As suas pequenas histórias em que a Nazaré serve de palco, mostram que José do Carmo Francisco é um escritor e cronista com uma magnífica caneta. Recorre-se da memória para escrever e por isso, pode dizer-se que esse olhar muito contribui para definir alguns dos traços da sociedade nazarena. José do Carmo Francisco nasceu em Santa Catarina, concelho das Caldas da Rainha, em 1951. Foi bancário, juiz social no Tribunal de Menores, jornalista, colaborador e redactor de revistas e jornais (Revista Ler, Diário Popular, A Bola, Jornal do Sporting,...) Ao longo da infância e juventude viu as mulheres que vendiam peixe nas Caldas, conheceu gente da Nazaré, foi à praia, enfim, um verdadeiro paleco que bebeu água da fontinha e ainda hoje conta coisas sobre a praia. Basta consultar o blogue onde escreve. Estão lá a «Elvira que foi amiga de minha mãe ...com a Tia Rosa e com a Tia «Barrila» vender o peixe em canastras que guardava na adega da casa da minha avó», «um grupo de músicos da Nazaré toca jazz de Nova Orleãs em Proença-a-Nova.», o futebol visto «na Nazaré, algures por Julho de 1997 que eu descobri que os árbitros deixaram de ser influentes para serem decisivos.», as pessoas que conheceu «No frio da noite a sopa de baleia é um conforto para o estômago. A palestra de Laborinho Lúcio foi uma poderosa revelação...», e tantas, tantas outras que nos perdemos a clicar uma atrás de outra história. 

O Mundo é pequeno e o acaso é grande: a Ana Maria que vem todos os dias da Nazaré para Santa Catarina, é sobrinha da Elvira e prima do Fábio e do Mauro, dois excelentes músicos nazarenos que são amigos do meu primo Luís Almeida, também músico. Meu pai (José Francisco) está muito bem entregue e nós os filhos podemos dormir mais descansados. A sombra de Elvira («amiga da alegria») continua a proteger quem enfrenta os dias com um teimoso sorriso nos lábios. Somos alheios aos desabafos antigos que chegaram ao nosso tempo («O estipor de vida que eu levo!») mas atentos ao bem disposto exclamativo perante uma coisa insólita, inesperada e inverosímil: «Só se está pardinal!» Na Nazaré tudo é diferente: pardinal quer dizer «com os copos» e a rosa divina é o «sol». E estipor é «estupor», claro.

blogue de José do Carmo Francisco

28.12.18

Gaivotas e falcões do Sítio





Diz-se que uma imagem vale mais que mil palavras. Como se dá conta nesta Escrita da Praia, muito já se escreveu com os olhos postos na Nazaré, no Sítio ou na Pederneira. Agora há um livro que tem mesmo matéria de luxo para os olhos. Sobretudo aqueles que olham o promontório e não conseguem ver tudo. As aves que o sobrevoam. O livro «O Sítio dos Falcões - Histórias de Sobrevivência» é um álbum de fotografias de Eduardo Barrento que acaba de ser apresentado na Biblioteca da Nazaré. O autor acompanhou durante cinco anos o falcão peregrino, o falcão peneireiro e as, tão vistas mas pouco descobertas, gaivotas. O resultado deste trabalho é um livro com «muita pesquisa envolvida, a nível de rotinas, comportamentos, limites e riscos. São muitos meses de observação, muita paciência...» diz o autor ao jornal Região de Cister. Na notícia dá-se conta de que a paixão de Eduardo Barrento pela Nazaré, o levará a editar outro livro mas, com fotografias das ondas da Praia do Norte.

O Sítio dos Falcões
Eduardo Barrento
ed. autor, 2018
(pedidos para: eduardo@barrento.com)

27.12.18

Vozes da praia nas Caldas da Rainha

fotografia de Natacha Narciso / Gazeta das Caldas
Ao longo do ano 2018, o autor e blogger Henrique Manuel Bento Fialho levou ao Teatro da Rainha, nas Caldas da Rainha, dezenas de poetas, editores, leitores,...Uma terça-feira por mês, a plateia encheu-se para ouvir dizer e contar, numa ideia que o Henrique deu o nome de Diga 33. Numa dessas terças, a de 16 de Outubro, ouviram-se dois autores nascido no mesmo lugar, com trajectórias que coincidem, apesar das diferentes obras e idades: Jaime Rocha e m. parissy. Como escreveu o Região de Rio Maior, «ouviram-se histórias com a vila piscatória em pano de fundo. Falou-se também da Tetralogia da Assombração do Jaime Rocha e o m. parissy não revelou a origens do seu nome, mas falou da editora volta d’mar.» A Gazeta das Caldas também deu conta da sessão.

19.10.18

Preso na Nazaré pela PIDE

Já foi cenário de romances, olhar de muitos poemas, mas a Nazaré, como cenário real, tem também muitas histórias por contar. Esta, por ex: no dia 28 de Agosto de 1960, Júlio Fogaça, comunista que disputou a liderança do Partido Comunista Português com Álvaro Cunhal, foi preso pela PIDE quando passeava na Nazaré. Júlio Fogaça foi suspenso pelo partido, logo a seguir. A explicação ainda hoje permanece um mistério.  Porque estaria na Nazaré? Que teria lá ido fazer?
As páginas da revista Visão (18 Out. 2018) dão conta da investigação que o jornalista Adelino Cunha revela no livro «Júlio de Melo Fogaça» que acaba de ser editado com «testemunhos inéditos de Domingos Abrantes, Edmundo Pedro e Carlos Brito ajudam a resgatar a intensa vida de um revolucionário esquecido.» A história já havia sido levantada no jornal Público, a propósito dos amores nas cadeias da polícia politica do regime fascista de Salazar e Caetano.

  Chegaram à vila da Nazaré perto das 13 horas.
  Deixaram os pertences no quarto que alugaram perto do elevador por 33 escudos e foram almoçar numa outra pensão. No domingo, compraram algumas recordações, duas pequenas jarras e uma caravela, mas quando caminhavam na direcção da garagem da empresa Ribatejana para regressarem a Lisboa, por volta das 16 horas, foram intempestivamente surpreendidos pela PIDE em plena calçada.
  Sílvio da Costa Mortágua, Manuel Lavado, Fernando Gaspar, Augusto Furtado Marques e José Ferreira Henrique Júnior prenderam Júlio de Melo Fogaça no dia 28 de Agosto de 1960. Estes agentes da PIDE prenderam assim um dos mais importantes (e ignorados) dirigentes comunistas portugueses do século xx.
  Como se explica o sucesso desta improvável emboscada policial, ao fim de 14 anos de perseguições falhadas, ainda que descontínuas? Uma operação de considerável envergadura no meio de uma vila que o Diário de Lisboa descrevia nesse mesmo dia como um destino de eleição dos turistas franceses, mas onde as estradas de acesso estavam profundamente degradadas e as automotoras da linha do Oeste nem sequer lá chegavam.
  A manobra da PIDE contou com acções simultâneas em Lisboa e cumpriu na plenitude o seu objectivo, ou seja, neutralizou, não apenas política mas também socialmente, um dos mais relevantes dirigentes do PCP em funções na década de 50.
  Os agentes da PIDE em momento algum hesitaram na identificação do alvo. 
  Sílvio Mortágua reconheceu facilmente Júlio Fogaça na Nazaré, «por saber que andava fugido à acção desta Polícia, por ser membro do comité central do chamado Partido Comunista Português e fazer parte da sua Comissão Política e do seu Secretariado». Levou-o para a esquadra da PSP local com a ajuda dos outros elementos da PIDE.

Júlio de Melo Fogaça
Adelino Cunha
Desassossego, 2018

2.6.18

Zé Petinga, o homem que não pára de escrever

«Esta é a verdadeira história de Zé Petinga, o homem que não parava de escrever». A imagem assim escrita por Henrique Manuel Bento Fialho, no início de uma das histórias do seu mais recente livro, é o mais fiel, simples e absoluto retrato do Zé Petinga. Nada mais se poderá dizer dele, pelo menos quem se cruza com ele nas esquinas e ruas da Nazaré. Henrique, no entanto, revela mais. E faz dele personagem até de uma outra história que contracena com Taranta (quem é do Sítio reconhece o nome). Mas é na página 227 do livro «A Festa dos Caçadores» que está este «amante de baronesas a tempo inteiro». Não uma biografia completa, é somente um relato com expressão do que o homem pode ser. Um breve diálogo e destreza de imaginação, um lirismo que compromete todos os seus amigos, uma vida contada sob um nome, mas que tem vários mundos lá dentro. De resto, vale a pena ler as mais de 330 páginas deste livro escrito por um autor que também erra pelas esquinas quando o vento o empurra até à praia. Henrique gosta de beber vinho com letras, gosta da Biblioteca da Nazaré, gosta. E aquele que continua sem parar de escrever também por lá anda. Sabe-se que tem apenas um título publicado na extinta editora non nova sed nove que sobreviveu uma vintena de anos a olhar p´ró mar.

Sabe-se que mordeu o isco da palavra como um peixe incauto morde a minhoca. Ficou com a garganta presa ao anzol das letras. A toda a hora o Zé Petinga escreve, escreve, escreve e redemoinha sobre o que escreve escrevendo.Tem milhares de páginas manuscritas, arrumadas em caixotes que lhe atafulham o quarto onde já nem dorme só para poder continuar a escrever. Vive sozinho com os seus caixotes de palavras, frases inteiras, poemas, contos, páginas sem nexo aparente, saídas dos dedos ao ritmo da água numa nascente.

A Festa dos Caçadores
Henrique Manuel Bento Fialho
Abysmo, 2018  

5.5.18

Cantar o Canto de Mar

Há livros que vão ser cantados, peças que sobem ao palco, fotografias que mostram o passado. E há mais nas Marés de Maio que arrancam hoje na praia. Um grupo de trabalho tem preparado para este mês diversas actividades culturais. Destaque para o espectáculo do dia 18 de Maio, em que o grupo Safra parte da antologia de poesia sobre a Nazaré Canto de Mar, editada pela Biblioteca da Nazaré, para uma aventura musical onde a palavra em forma de poema é dita, não cantadaCinco músicos em palco convidam o espectador a viajar pela Nazaré, nas palavras de vários autores, acompanhadas de música instrumental originalmente criada para o espectáculo: João Quintino, bateria; Cláudio Magalhães, guitarra eléctrica e teclas; Rui Arroja, baixo eléctricoTânia Calhaço, leitura; e Filipe Vidal, leitura, guitarra acústica e teclas.

SAFRA
18 de Maio, 15h
Teatro Chaby Pinheiro
Sítio da Nazaré

31.3.18

Tradição e História


Do Monte de São Brás ao cimo da Serra da Pescaria, houve desde sempre uma vontade dos que defendem a história do lugar onde nasceram, em escrevê-la. Contar o que vem detrás. É o que é este livro de poucas páginas, para uma história que começa no séc. XVI e rapidamente chega aos nossos dias. José António Caneco era um dos interessados na história, acérrimo defensor das tradições locais. Para quem procura uma espécie de breviário do que foi e é a praia, este é um volume perfeito para ler. Ali está a história da formação da Nazaré com os Ílhavos, a autoridade que a mulher impôs na casa de família, as artes de pesca, os barcos, o desenvolvimento da sociedade. E contam-se pequenas estórias de que o autor tanto gostava de ouvir. De leitura fácil, sem rodeios.

(...) Tendo por prato forte o badejo, previamente escalado e salgado - tal como o bacalhau - e cozido com batatas, a festa corria sempre animada com cantares à desgarrada ao som de instrumentos musicais e improvisados (pinhas, cântaro, abano e garrafas com garfos de ferro),
O azeite e o vinho corriam a jorros para as travessas, pratos e copos, depositados sobre as esteiras, onde, sentados no chão, ou recostados sobre os cotovelos, os convivas iam deglutindo a seu bel-prazer, à mistura com descantes e uma ou outra dança desatinada.(...)

Nazaré - Tradição e História
José António Caneco
recolha de textos de Fernando Barqueiro
ed. CM Nazaré, 1999

14.12.17

João filho de pescadores

É uma surpresa que só agora foi revelada. Um pintor, ilustrador e designer gráfico alemão, passou por Portugal, aterrou na Nazaré e escreveu uma história infantil. «João» foi escrito por Jan Balet e só agora foi publicado em versão portuguesa. Diz a editora Kaladraka que «João é o filho mais novo de uma grande família de pescadores da Nazaré. Enquanto brinca, observa os seus familiares e a dureza do seu dia a dia de trabalho. Como gostaria de escapar àquela vida, saindo dali e enriquecendo... Uma tarde, quando confessa o seu desejo à avó, adormece e, no seu sonho, vê-se numa terra distante e já muito longe do mar...»

João
Jan Balet
tradução de Manuel San-Payo 
Kalandraka, 2017

22.10.17

Vinho com Letras na praia

A celebrar seis anos de livros, a editora volta d' mar junta de novo numa só noite massa de sargo, poemas, cântaros, revistas, e o que mais aparecer na Violeta (Casa dos Cedros, no Largo da Independência, Nazaré). O «Vinho com Letras» era para se chamar «Café com Letras», mas como na Violeta não há café, ficou «Vinho com Letras». Desde 2013 que autores, leitores e de resto, quem quiser, se sentam à mesa para uma noite verdadeiramente cheia de vinho, perdão, poemas.


6.10.17

O sagaz mendigo da Nazaré

É um livrinho que resume o autor, assim ele quis, como último de poesia. O autor Miguel Martins anunciou que não mais escreverá poemas e estes são os últimos escolhidos pelo próprio para resumir o que fica da obra. De entre as escassas 22 páginas, deste livro editado pela Fahrenheit 451, um dos poemas viaja até à Nazaré. Em apenas dois versos há um «sagaz mendigo». É num dos mais inquietantes poemas escritos por Miguel Martins e mais distanciados, como escreveu Manuel de Freitas. Apenas isso.


Não, não são os poemas que me interessam,
mas os poetas, os gritos noite dentro,
a casa que é alheia e se faz minha,
seja defronte ou em Paris ou mesmo
numa centúria distante e repintada.

O Alex esconjurando a impotência,
o Silva Ramos engravatando o vinho,
o Mário Alberto apostrofando as pedras
da Avenida, ou o sagaz mendigo
da Nazaré, todo onomatopeias.

Não, não há verso que luza mais afoito
do que a rosa de crepe num bordel
quando a comeste, com sal e pimenta,
e recitaste, com pompa vitoriana,
o preçário, tal fora a nossa vida.

O Caçador Esquimó
Miguel Martins
Fahrenfeit 451, 2017

6.9.17

Testemunhos para entender Redol

Para que se compreenda melhor a história literária de Alves Redol e as incursões que fez quer em Vila Franca de Xira, quer no Freixial ou na Nazaré, é preciso escutar quem com ele partilhou os dias numa «amizade sem esforço». Os testemunhos reunidos dão um volume muito curioso da vida e da obra do autor de «Uma Fenda na Muralha». Partindo das gravações feitas com «as pessoas simples, quase analfabetas» que conviveram com Alves Redol, os dois organizadores desde livro revelam um indiscutível mundo para que se perceba melhor a forma de Redol abordar o quotidiano que o perturbava. Neste livro «Alves Redol, testemunhos dos seus contemporâneos» estão o compositor Zeca Afonso, a escritora Matilde Rosa Araújo, Raul de Carvalho, Sidónio Muralha, o pintor Rogério Ribeiro, e tantos outros escritores e artistas plásticos, ao lado de gente anónima que aqui ganha relevo pela experiência que revela: Abel da Silva, amigo de Redol no tempo em que este percorreu as ruas estreitas que vão dar ao mar, o pescador Manuel Vagos que foi seu assitente técnico regional para o argumento do filme «Nazaré» de Manuel de Guimarães, Raimundo Ventura que neste livro lhe dedica um poema, além de um capítulo dedicado aos depoimentos recolhidos na Nazaré, em que se salientam os nomes de Brígida de Jesus Fialho, Rosa da Galiana, Francisco Gandaio, Diamantino Peixe, João Vaz «joaninha», entre outros. São mais de 500 páginas organizadas por Maria José Marinho e António Mota Redol que alimentam a obra de Alves Redol.

- Era na taberna do António Aleluia que essas coisas se falavam. Recorda-se disso?
- Recordo. Era ali que as coisas se falavam.
...
- Quando foi para ler o livro Uma Fenda na Muralha, o Manel esteve lá...
- Estivemos. Ele lia e nós víamos se realmente estava concreto.
- Ele até corrigia?
- Às vezes alguma coisa que nós dizíamos ele corrigia.
- Como é que o Manuel Vagos conheceu o Alves Redol?
- Foi por intermédio do Abel. Apareceu aí e o Abel indicou-me a mim p'ra eu andar com ele, mostrar-lhe umas certas coisas. Mostrei-lhe umas certas coisas e ele disse que não era aquilo que queria ver, que queria ver era casas dos pobres. E eu então levei-o a todas as casas pobres que existiam, até cagonas aí no meio dos caixilhos, através da bandeira do sítio, só aonde é que havia miséria e era isso que ele gostava de ver. E foi tudo isso que eu percorri com ele.

(excerto da entrevista ao pescador Manuel Vagos)

Alves Redol, testemunhos dos seus contemporâneos
org. Maria José Marinho e António Mota Redol
ed. Caminho, 2001

12.4.17

Os pés-descalços e os pés-calçados

Vale mais tarde que nunca, diz o ditado. E ter nascido escritor aos 72 anos, não é tarde. É no tempo que é ou que tem de ser. Álvaro Laborinho Lúcio, nazareno, ex-ministro, ex-presidente da Assembleia Municipal da Nazaré, ex outras coisas de estado e de responsabilidade públicas, escreveu já dois livros (um deles com a Nazaré como pano de fundo). E o Jornal de Letras acaba de publicar uma Autobiografia. É de ler!

Na primeira vez que nasci havia guerra. Na minha terra, Nazaré, havia fome. As pessoas dividiam-se em pés-descalços e pés-calçados. Os miúdos descalços vestiam camisola de escocês esfiapado e andavam nus da cintura para baixo. Eu usava calções. Quando chegou o tempo de aprender a ler, a escrever e a contar, o meu pai mandou-me para a Escola dos Pescadores e eu fiquei colega dos pés-descalços. Aí, ao princípio, nascia todos os dias um bom bocado. Acho que foi nessa altura que nasceu por dentro a parte mais funda de mim. Nasceu e ficou lá.

Álvaro Laborinho Lúcio
Entre as linhas
JL-Jornal de Letras, nº 1214, 12 abril 2017

5.3.17

Escrever em alto mar

Há vários livros publicados sobre a pesca do bacalhau. Os mares da Gronelândia e da Terra Nova foram lugares de trabalho para centenas de pescadores da costa portuguesa, sobretudo durante as décadas de 40, 50 e 60 do século XX. Os relatos são quase ilustrativos da dureza da pesca em alto mar, da vida a bordo durante meses. De entre todos esses livros, está «Nos mares do fim do mundo» de Bernardo Santareno. Não é apenas um livro sobre a faina. Trata-se de um conjunto de textos que mostram a destreza de um médico e escritor que embarcou na frota bacalhoeira para tratar das feridas e dos males dos «pescadores mais bravos do mundo», como escreveu o repórter australiano Alan Villiers, na «Campanha do Argus». Bernardo Santareno, aliás o jovem médico António Martinho do Rosário, embarcou para depois escrever essas atrozes desventuras no mar.
A pesca do bacalhau levou dezenas de pescadores da Nazaré a fugir dos Invernos rigorosos em que não se pescava na costa e a tentar uma vida financeiramente melhor. Alguns estão neste livro. Aqueles que, de algum modo, se cruzaram com o jovem médico: o Pescadinha Ova da companha do navio Álvaro Martins Homem, Toino Fialho que caiu ao mar apanhado por um cabo da proa do arrastão António Pascoal, Matias Varina e Joaquim Ribeiro do mesmo barco, Toino Nazareno sobrevivente do naufrágio do Maria da Glória, e tantos outros, ao lado de marinheiros da Fuzeta ou da Póvoa de Varzim.
Corre sangue e maresia e gelo e neve nesta escrita de Bernardo Santareno. Consegue, apesar dos naufrágios e dos tiros dos submarinos da segunda guerra, criar com poesia e rigor dramático a vida a bordo dos arrastões por onde passou. Foram duas campanhas
A reedição de «Nos mares do fim do mundo» vem acompanhado de dois textos e várias fotografias inéditos.

Foi no «Sam Tiago», um navio-motor de pesca à linha.
O rapaz era da Nazaré. Verde, de dezoito anos. Taciturno, muito calado, vestia sempre de preto (algum luto recente?) e dava nas vistas pelo uso de um longo terço, feito com conchas do mar, que ele amarrava todas as manhãs à cinta, na hora dos «louvados», antes de arriar... Era dum trigueiro sombrio, bronzeado, enxuto de carnes e leve de movimentos, mesmo grácil. Estranha também era a maneira como tratava os outros, quando estes, irresistivelmente atraídos para ele, tentavam entabular conversa: fixava-os com os seus intensíssimos olhos verdes-lume, por momentos agitava as negras pestanas longas e duras, meneava a cabeça em jeitos de cachopo amuado e...nem uma palavra!
Cada verde costuma ficar ligado a um dos mais experientes pescadores (às vezes pai, ou tio, ou irmão), que lhe ensinará a rate da pesca e o protegerá no mar. Duas vezes e sucessivamente recomendado pelo capitão a dois da companha, de ambos o esquisito nazareno, mal arriado o bote, fugiu obstinado e acintoso. 

Nos mares do fim do mundo
Bernardo Santareno
Prefácio de Álvaro Garrido
E-Primatur, Março 2016

27.2.17

Leitura de um poema com a Nazaré dentro

Eis de novo um dos poemas que Inês Dias escreveu e que tem a Nazaré lá dentro. Já aqui o referimos por diversas vezes, como sendo um texto publicado em revistas e em livro. Surge agora dito por Raquel Marinho, jornalista e leitora de poesia. Trata-se do poema «A Minha Primeira História de Portugal».